quarta-feira, 10 de maio de 2017

Conheça: Delmira Agustini

Delmira Agustini, poeta e ativista feminista uruguaiana (1886-1914), foi uma mulher a frente do seu tempo, escreveu sonetos sobre erotismo feminino numa época em que este ramo era totalmente dominado por homens. Sua obra é caracterizada por uma carga erótica forte. Seus poemas seguem a linha modernista e estão cheios de feminismo, simbolismo, sensualidade e sexo. Seu estilo pertence à primeira fase do Modernismo e seus temas que tratam de fantasia e materiais exóticos. Eros, deus do amor, simboliza erotismo e é a inspiração para poemas Agustini cerca de prazeres carnais.

Porém infelizmente Delmira estava fisicamente inserida num tempo misógino, e por essa razão a história da poeta foi interrompida prematuramente, aos 27 anos, após se separar do marido, ele a assassinou e cometeu suicídio depois. Atualmente Montevidéu tem um memorial dedicado a Delmira Agustini e todas as vítimas de violência de gênero localizado na rua Andes 1206, onde Delmira foi assassinada pelo ex-marido.


Tem disponível para baixar de graça para o Kobo (no app ou no e-reader) no site da Livraria Cultura e-book com sonetos de Delmira: AQUI.

terça-feira, 9 de maio de 2017

"O Conto da Aia", de Margaret Atwood

"The Handmaid's Tale" (no Brasil "O Conto da Aia", pela editora Rocco) é uma ficção distópica escrita pela canadense Margaret Atwood no ano de 1985. A trama virou série, cuja primeira temporada conta com 10 episódios e que está renovada para a segunda temporada, transmitida pelo serviço de streaming Hulu. A história é interessantíssima, se passa futuro imaginário, onde os Estados Unidos não se chamam mais Estados Unidos, o país tornou-se a República de Gilead, que é governada por um regime totalitário e teocrático que vive uma guerra civil. O país é organizado de modo que as mulheres são propriedade do Estado, não têm direitos individuais e são divididas em castas – mulheres férteis (as mais raras) pertencem ao grupo das aias e têm apenas uma função: procriar para famílias de homens poderosos e suas esposas estéreis. O processo no qual as aias são estupradas pelos comandantes é chamado de “cerimônia”. Para quem gosta de ficção política, ficção científica, distopias sociais como 1984 e A Revolução dos Bichos (de George Orwell), Fahrenheit 451 (de Ray Bradubury) ou Admirável Mundo Novo (de Aldous Leonard Huxley), indico muito a leitura de O Conto da Aia, pois esta obra tem um pouco de tudo que tem naquelas outras, o debate sobre o totalitarismo, sobre liberdade e direitos civis e sociais, só que com uma pitada de algo que faz oportuno debater as questões de gênero.

Imagem: A Handmaid's Tale by Francisco Martinez.
SINOPSEA história de 'O conto da aia' passa-se num futuro muito próximo e tem como cenário uma república onde não existem mais jornais, revistas, livros nem filmes – tudo fora queimado. As universidades foram extintas. Também já não há advogados, porque ninguém tem direito a defesa. Os cidadãos considerados criminosos são fuzilados e pendurados mortos no muro, em praça pública, para servir de exemplo enquanto seus corpos apodrecem à vista de todos. Nesse Estado teocrático e totalitário, as mulheres são as vítimas preferenciais, anuladas por uma opressão sem precedentes. O nome dessa república é Gilead, mas já foi Estados Unidos da América. As mulheres de Gilead não têm direitos. Elas são divididas em categorias, cada qual com uma função muito específica no Estado – há as esposas, as marthas, as salvadoras etc. À pobre Offred coube a categoria de aia, o que significa pertencer ao governo e existir unicamente para procriar. Offred tem 33 anos. Antes, quando seu país ainda se chamava Estados Unidos, ela era casada e tinha uma filha. Mas o novo regime declarou adúlteros todos os segundos casamentos, assim como as uniões realizadas fora da religião oficial do Estado. Era o caso de Offred. Por isso, sua filha lhe foi tomada e doada para adoção, e ela foi tornada aia, sem nunca mais ter notícias de sua família. É uma realidade terrível, mas o ser humano é capaz de se adaptar a tudo. Com esta história, Margaret Atwood leva o leitor a refletir sobre liberdade, direitos civis, poder, a fragilidade do mundo tal qual o conhecemos, o futuro e, principalmente, o presente.

O título parece estar esgotado no Brasil, mas ainda é possível encontrá-lo nos sebos.

ACHEI PARA BAIXAR AQUI: O CONTO DA AIA EM PDF

Título: O Conto da Aia;
Autora: Margaret Atwood;
Editora: Rocco;
Págs.: 366;
Preço: R$ 48,00.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

"Para Educar Crianças Feministas: um manifesto", de Chimamanda Ngozi Adichie.

De modo geral, pode-se dizer que o feminismo é um "modo de pensar" segundo o qual todo ser humano tem exatamente igual valor de humanidade sem que se deva fazer qualquer discriminação que imponha exigências, expectativas prévias ou mesmo "diminuição" da humanidade de uma pessoa humana com base em seu gênero ou sexo. Sabemos, entretanto, que diversas sociedades fazem esse tipo de discriminação e é em lutar contra essa discriminação – tanto nas suas causas quanto nos seus efeitos – que se emprenha o feminismo. É sobre educar crianças com essa visão de justiça que se debruça o livro Para Educar Crianças Feministas, da maravilhosa escritora Chimamanda Ngozi Adichie. Este livro não pretende ser um manual, mas uma conversa franca com sugestões para ajudar a ter ideia de como agir na educação das crianças no sentido de orientá-las diante da realidade que é viver num mundo cheio de injustiça de gênero. É uma leitura que indico tanto para quem educa quanto para quem não educa (ao menos, não diretamente) crianças, porque traz um texto, embora de leve leitura, carregado de questões urgentes e fundamentais que não devem ser negligenciadas, questões acerca de diversos tipos de violência e desvalorização de seres humanos só por serem classificados como "mulher". 


SINOPSEApós o enorme sucesso de 'Sejamos todos feministas', Chimamanda Ngozi Adichie retoma o tema da igualdade de gêneros neste manifesto com quinze sugestões de como criar filhos dentro de uma perspectiva feminista. Escrito no formato de uma carta da autora a uma amiga que acaba de se tornar mãe de uma menina, Para educar crianças feministas traz conselhos simples e precisos de como oferecer uma formação igualitária a todas as crianças, o que se inicia pela justa distribuição de tarefas entre pais e mães. E é por isso que este breve manifesto pode ser lido igualmente por homens e mulheres, pais de meninas e meninos. Partindo de sua experiência pessoal para mostrar o longo caminho que ainda temos a percorrer, Adichie oferece uma leitura essencial para quem deseja preparar seus filhos para o mundo contemporâneo e contribuir para uma sociedade mais justa

Tem a versão digital e a física e custam R$9,90 e R$14,90, respectivamente.

Título: Para Educar Crianças Feministas: um manifesto;
Autora: Chimamanda Ngozi Adichie;
Editora: Cia. das Letras;
Tradução: Denise Bottmann;
Págs.: 96.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Caras que eu conheço

Na minha pré-adolescência fui a "amiga-tipo-menino", mas isso só até a menstruação descer e meu corpo mudar e os meninos começarem a perceber que eu não era "um cara". Permaneceu assim, não mudou, mesmo que eu mudasse os amigos eu sempre era um "não-cara", antes de qualquer outra coisa, e o respeito (no sentido de admiração e consideração) não tinha como não passar por esse filtro: "Jacilene é uma menina". Não deixou mais de ser assim, mesmo nos meios de "caras" que dizem não fazer diferenciação de gênero (porque quase sempre é mentira). Eu nunca tive vontade de "ser qualquer daqueles caras", na grande maioria era um monte de idiotas mimados, incapazes de ver qualquer complexidade no que fosse, porque vivem num sistema que os mima e os protege para sempre serem servidos, hoje pelas mães, amanhã pelas esposas, mas sempre pelas "mulheres", uns babacas fanfarrões criados sem capacidade de fazer o próprio café da manhã, arrumar a própria cama ou lavar uma camisa. E eles "perceberam que eu era uma dessas", que eu "não era um cara". 

Cresci observando e protestando contra atitudes práticas que reduziam minha humanidade à categorização "mulher" e, com isso, carregava minhas costas com o peso de todas as expectavas sociais imbecis que se tinham para essa categorização prévia: seja boazinha; seja frágil; seja doce; seja meiga; seja delicada; seja "mais feminina"; os meninos não gostam de meninas assim, então seja uma estúpida que faça eles se sentirem seguros, porque, na verdade, eles que são inseguros e estúpidos; não seja melhor do que os meninos. 

Na verdade, mesmo hoje, eu conheço um monte de caras que até dizem apoiar ideias feministas, que bancam os descontruidões descolados para alguns grupos que querem impressionar, mas que no fundo, na sinceridade, não respeitam de verdade um ser humano pelos seus feitos e ideias sem fazer uma prévia categorização de gênero, isto porque, no fundo, acreditam que mulher é tudo estúpida, fútil, superficial e "complicada" (pra não dizer idiota), são uns tipos de caras que gostam de verdade e respeitam, admiram de verdade, só os amigos que eles categorizam como homens, com quem podem conversar "coisas de homem" e ouvir as opiniões e experiências "dos caras", que são as que realmente eles dão atenção, enquanto às mulheres eles fingem ouvir porque ouviram dizer no feminismo que têm que ouvir. Porém, considerar uma pessoa sem expectativas de gênero é uma prática, uma internalização, não um bla bla bla hipócrita. Conheço diversos desses caras, me entediam, por isso minha atitude tem sido a de ignorá-los.

*   *   *
>> Livro que eu indico esta semana: 

"Último aviso", por Franziska Becker
Categoria: Quadrinhos adultos;
Publicado no Brasil por: Barricada;
130 pgs.

Sinopse: 'Último aviso' traz o olhar feminista afiado da alemã Franziska Becker sobre temas variados da vida privada e social, como consumo, moda, dinheiro, relacionamentos, política, religião e mídia. Iniciada no mundo das charges, caricaturas e histórias em quadrinhos na década de 1970, Franziska é considerada uma das mais brilhantes cartunistas da Alemanha. Oscilando entre a profunda seriedade e bobagens absurdas, Franziska criou com o conjunto de seus trabalhos uma grande crônica sobre o contemporâneo, abordando situações familiares e atuais, mas de relevância atemporal. Sua visão do mundo mostra um retrato surpreendente e irritante de nossa existência, sempre colocando o leitor entre o sonho e a realidade. Com ironia, humor e uma dose de sua própria experiência, Franziska revela o espírito da época em todas as suas facetas, com um olhar incorruptível que pode ser, ao mesmo tempo, maldoso e amoroso, mas que é sempre certeiro e anarquista. Quer se trate de 'modalidades esportivas para mulheres', da 'administração de crises' ou da 'nova política para desempregados' - os desenhos burlescos e as situações bizarras criados pela cartunista são marcados pela irreverência e enriquecidos por uma profusão de detalhes que remete aos mais sutis absurdos do cotidiano.

sábado, 8 de abril de 2017

"Outros Jeitos de Usar a Boca", de Rupi Kaur

Sinopse: Outros jeitos de usar a boca é um livro de poemas sobre a sobrevivência. Sobre a experiência de violência, o abuso, o amor, a perda e a feminilidade. O volume é dividido em quatro partes, e cada uma delas serve a um propósito diferente. Lida com um tipo diferente de dor. Cura uma mágoa diferente. Outros jeitos de usar a boca transporta o leitor por uma jornada pelos momentos mais amargos da vida e encontra uma maneira de tirar delicadeza deles. Publicado inicialmente de forma independente por Rupi Kaur, poeta, artista plástica e performer canadense nascida na Índia - e que também assina as ilustrações presentes neste volume.

Não sei como classificar a leitura desse livro de maneira que o mesmo seja plenamente contemplado. Não encontro adjetivação satisfatória nem para ele nem para como ele me fez me sentir. Já ouvi ou li por aí sobre como uma obra de arte lê seu observador, ao invés de o inverso, pois eu sentia, a cada página, que os poemas desse livro liam a mim, e não eu a eles. E nossa como tocou fundo, como doeu. Chorei de soluçar. Chorei rios. Assim, só digo que é um livro fuderoso!


O título original é Milk and Honey, em referência a um dos poemas do livro, e no Brasil foi publicado como Outros Jeitos de Usar a Boca em referência também a um dos poemas do livro, pela editora Planeta. Eu gostei mais do título da versão brasileira.


R$29,90, achei o preço bom e recomendo demais a leitura.
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