quinta-feira, 18 de julho de 2013

"Tudo que você quer ser!"

Barbie by Jordan Clark.
Uma situação me intrigou outro dia. Numa matéria na TV na qual o assunto era algo relacionado à mudanças do corpo feminino (prococadas por hormônios, alterações de metabolismo, entre muitos outros fatores) um senhor é perguntado na praia sobre o que ele acha sobre "mulher que não cuida do corpo". A resposta do senhor foi que "mulher gordinha (para tentar ser carinhoso) é muito feio, logo mulher tem que se cuidar". Curioso é que esse mesmo senhor exibia pelas calçadas de alguma praia do Rio de Janeiro (que não lembro qual é) um indiscreto barrigão daqueles "de chopp", por isso que a jornalista que o entrevistava, não mais do que depressa, rebateu: "mas o senhor também está bem barrigudinho heim?...". Porém, mais curiosa ainda foi a resposta imediata do senhor: "mas com homem é diferente!"; e seguiram-se risadas dessas que servem para fingir que foi atenuado um absurdo que foi dito.

Claro que a "ditadura do corpo sarado" recai sobre todos, independende de gênero e sexo, mas dessa vez é referente ao modo como recai sobre as mulheres que eu quero brevemente falar aqui.

Não precisa nem falar sobre como a "beleza" sempre foi, e é até hoje, imposta objetivamente nas revistas e meios de comunicação social em geral, não preciso aqui mencionar todos os traumas psicológicos que esse apartheid social gera em quem não se "encaixa nos padrões". Cabelos lisos, alta, manequim 36 (ou menos!), calçado nº 36 (vocês já viram mulher com vergonha de comprar sapato 39? Eu já vi muitas!) e por aí vai a padronização de pessoas como se gente fosse boneca repetida feita em fábrica. Já falamos muito sobre isso, já sabemos muito bem o que é isso. Já sabemos muito bem o quando sofre com esse separatismo quem tem cabelo crespo, quem é baixinha, quem tem pés "grandes", quem não foi criada em fôrma de Barbie.

Eu lembro muito bem que, quando eu era criança, o slogan da Barbie era "Barbie: Tudo que Você quer Ser". Parece que com o tempo o slogan cretino foi substituído por um mais democrático, qual seja: “Barbie: Seja o que Você Quiser”. No entanto, a ditadura da perfeição positivada (no sentido de 'positivismo' e não 'positividade') permanece cristalizada, rotulando aqueles que preferem não segui-la, como pessoas de preferências excêntricas ou mesmo exóticas. Esses termos, aliás, me incomodam muito quando usados ao lado da palavra 'beleza'. O que diabos quer dizer 'beleza exótica'?! Podem ser sinômimos de 'exótico' palavras como 'alienígena' (no sentido de 'estrangeiro'), 'estranho', 'esquisito', 'extravagante', 'diferente'; deste modo, uma beleza não é "exótica" quando corresponde aquela que é sempre "igual". Outro termo que é até hype, está na moda, mas eu sinceramente não vou com a cara, é o 'plus size'. Dizer "uma bela mulher plus size", é um bom exemplo atual de como ocorre esse apartheid social

E nos dividem assim: esta é a área das "bonitas tradicionais"; esta é a área das "bonitas exóticas"; esta das "bonitas plus size". E por aí vai a especificação de pessoas em categorias, ao modo aristótélico de separar as coisas.

Não estou aqui criticando que os humanos sintam-se atraídos por aquilo que lhes parece belo. De jeito nenhum! Mesmo porque eu também, como humana que sou, me atraio por aquilo eu acho bonito. Só estou mostrando minha indignação com a diminuição das possibilidades beleza feminina (ou mesmo de todas as pessoas) à fôrma da boneca Barbie, ao modelo "saradona", ou mesmo ao plus size, à "beleza exótica" ou qualquer outro tipo de positivação do conceito de belo, e digo mais, me indigna essa obrigatoriedade de que a mulher tem que ser bonita sob um ponto de vista ou outro, mas tem que ser de alguma forma bonita (nem que seja "por dentro"!). Ah, me poupe disso! Dentro do próprio espaço, ninguém tem que ser coisa nenhuma que não queira, nem "bonita" (seja lá o que isso queira dizer), oras!

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...