quarta-feira, 30 de julho de 2014

A "cultura do estupro" em Chapeuzinho Vermelho

Claro que a linguagem metafórica sempre está aberta à novas interpretações possíveis, por essa razão, hoje vou falar de uma interpretação possível do conto clássico altamente disseminado pelo mundo: Chapeuzinho Vermelho. Sempre leio fábulas antigas, dessas que culminam numa "moral da história", o faço com um ar bem crítico, procuro com afinco alusões a preconceitos clássicos para refutá-los, de modo a promover uma nova visão desses contos que eu, particularmente, adoro ler.

O conto de Chapeuzinho Vermelho é há mais de 200 anos usado para ensinar as meninas a não andarem sozinhas e tomarem cuidado com os "lobos à espreita" e, mesmo nos dias de hoje, as garotas continuam recebendo advertências para tomarem cuidado para não chamarem a atenção dos ‘lobos’. Na história infantil, só outro homem (o caçador) é capaz de salvar a Chapeuzinho — mesma ideia de príncipe encantado.

A moral da história:

"Vemos aqui que as meninas
E sobretudo as mocinhas
Lindas, elegantes e finas
Não devem a qualquer um escutar.
E se fazem, não é surpresa
Que do lobo virem o jantar.
Falo "do" lobo, pois nem todos eles
São de fato equiparáveis,
Alguns são até muito amáveis,
Serenos doces lobos, com toda educação,
Acompanham as jovens senhoritas
Pelos becos afora e além do portão.
Mas ai! Esses lobos gentis e prestimosos,
São, entre todos, os mais perigosos."

Ainda hoje as meninas são ensinadas a serem vigilantes quanto ao que vestem, como falam, orientadas a serem "difíceis", recatadas e desconfiadas com os homens, aqui caracterizados como "Lobos". E se elas são "devoradas por algum lobo" — desde um estupro, até uma piadinha ofensiva —, a culpa é delas por não terem se portado conforme o recomendado.

O que é que eu estou propondo? Que este conto seja banido das lições infantis? Claro que não! Como eu disse lá no começo do texto, "a linguagem metafórica sempre está aberta à novas interpretações possíveis", e, no caso deste conto, podemos absorver a ideia de uma simples recomendação de que devemos agir com cautela em relação às pessoas desconhecidas até à ideia da cultura do estupro, por isso este texto deve ser apresentado para promover a reflexão sobre as possíveis utilizações negativas de suas possibilidades interpretativas. Uma delas foi a que eu procurei denunciar aqui.

► Fonte da imagem e citação:
• Formato: ePub
• Autor: PERRAULT, CHARLES
•Idioma: PORTUGUES
• Editora: ZAHAR
• Assunto: LITERATURA ESTRANGEIRA

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