sábado, 30 de abril de 2016

Nem todos querem criticar a ideia de que todas têm que ser "belas"

Agora que passou, acredito que se faz cabível falar sobre algumas percepções advindas da campanha "bela, recatada e do lar". Retomando a questão, há algumas semanas a revista Veja publicou uma matéria que elogiava e inaltecia como "modelo perfeito de mulher" a mulher que seguia a linha "bela, recatada e do lar" — bem ao estilo "mais de cinquenta anos atrás. O modelo representante desse ideal era a mulher do atual vice-presidente golpista. Este fato gerou uma onda de indignação por parte de mulheres que, com toda razão, se insurgiram contra essa esteriotipação retrógrada que dita como toda mulher tem que ser para ser boa. Claro que quem queira pode ser "bela, recatada e do lar", o problema é pregar que todas tem que ser e quem é assim seria, portanto, melhor do que quem não é.

É evidente que eu participei na campanha contra essa ditadura retrógrada de "mulher ideal", de modo que acompanhei os posts das demais pessoas acerca da campanha — principalmente pelo Instagram. Entre as descontruções da tríade "bela, recatada e do lar" eu vi "bela, desbocada e do bar", "bela divertida e do trabalho", "bela, como eu quiser, de onde eu quiser".... O único ponto que o questionamento não foi, na maioria dos casos, aprofundado foi quanto ao ponto "bela". A rejeição à obrigação social quanto aos pontos "recatada" e "do lar" foi intensa, mas ninguém — ou quase ninguém — questionou, procurou desconstruir o quesito "bela". 

Talvez quem lê este texto se questione "mas quem é que vai querer ser feio?", ninguém decerto, mas o problema aqui apresentado é a objetivação do que é "ser bonita" — objetivação, aliás, quase sempre ditada por quem corresponde ao modelo que se dita como o melhor, como correto e tem poder de disseminar sua ideia de "verdade" como se esta fosse a verdade — já ouviram dizer que "uma mentira repetida muitas vezes toma ares de verdade"? A questão é que há um padrão do que é "ser bela" defendido ali naquele discurso daquela revista, que corresponde a ser magra, branca, cabelo lisinho, arrumadinho, de preferência loiro, maquiagem suave, nariz arrebitadinho, traços considerados "delicados", um padrão racista e eurocêntrico que, no fundo, afirma que quem não se encaixa nesses moldes não responde ao quesito "ser bela", é "feia".

Eu lembro que nos anos 90, quando eu era uma criança, o slogan da Barbie era "Barbie, tudo que você quer ser" — dá para pensar num slogan mais cretino? Um comercial de boneca me ditava que "tudo o que eu quero ser" é uma moça loira, cabelos lisos, olhos azuis, alta, magérrima, peituda, e toda coberta de coisas em cor-de-rosa. Hoje o slogan do comercial desta boneca deu uma melhorada nesse sentido e diz "seja o que você quiser" — tanto que, recentemente, a marca lançou versões da boneca nos mais diversos biotipos que, embora eu ainda não tenha visto nenhuma dessas "novas Barbies" à venda em lojas de brinquedos na cidade onde eu moro (Recife-PE), acredito que represente um instrumento importante à desconstrução deste modelo de beleza racista e eurocêntrico do qual está se falando aqui.

Assim, eu só quero dizer a final que além de "de onde eu quiser" (ao invés de necessariamente "do lar"), "do jeito que eu quiser" (ao invés de obrigatoriamente "recatada"), eu também sou "com a aparência que eu quiser" (ou invés deste "bela" em moldes racistas, eurocêntricos da revista Veja).

Por Jacilene S, <br.pinterest.com/jacilenesil>


Sugestão de livro:

O Mito da Beleza: como as imagens de beleza são usadas contra as mulheres.
Autora: Naomi Wolf
Editora: Rocco
Ano: 1992
Tradução: Waldéa Barcellos.

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