quarta-feira, 22 de junho de 2016

O véu ocidental

Basta clicar nas imagens para ampliá-las.


Minha intenção aqui é chamar atenção à fala que eu destaquei em amarelo, Este trecho, em especial, me chamou atenção porque nos convida a olharmos "nossos próprios umbigos" antes de julgar os outros. Comumente a mulher ocidental tem a ideia de que "as orientais são todas umas coitadinhas, precisam ser livres como nós" e o véu figura como a símbolo mor desse pensamento.

Assim, vamos falar de nossas "escolhas e comportamento livres".

Tenho amigas que travam verdadeiras guerras com os próprios cabelos porque cresceram com a ideia de que o "cabelo bom" era outro tipo de cabelo diferente do dela, e se submetem a processos químicos violentos para tentar alcançar aquele "cabelo melhor" que tanto a fizeram acreditar que deveriam ter — infelizmente esta história é de bem mais do que uma amiga, é de várias. Não adianta dizer que elas não precisam fazer aquilo se não quiserem, o processo de criação dessa ideia foi feito de forma continuada durante muito tempo, de modo que já tomou proporções psicológicas muito profundas, e, em algumas mais outra menos, as fazem sofrer. Tem moças que eu conheço que se forem vistas sem maquiagem simplesmente se desesperam, que torram cada centavo que têm com roupa, maquiagem, cabelo, unhas... Há uma grande indústria que planta inseguranças psicológicas nas mentes dessas mulheres e depois prometem "resolver seus problemas" com produtos.

De uns tempo para cá surgiram movimentos na internet que pregam o fim da chamada "ditadura do cabelo liso", por "cabelos livres", assim incentivam as moças a aceitarem seus cabelo naturais crespos, ondulados, cacheados ao invés de submetê-los a processos de alisamentos químicos ou físicos que são degradantes. Até aí ótimo, inciativa louvável. No entanto, a indústria não iria deixar de se aproveitar desse movimento. E não deixou mesmo, hoje vejo, inclusive nesses grupos, propagandas de produtos voltados para cabelos cacheados que custam uma fortuna — quase R$100 um potinho de creme com 400g, e as meninas torram fortunas com esses produtos para garantirem "cachos bonitos". Daí me respondam: vocês querem seus cabelos livres de que mesmo? Porque trocar uma indústria exploradora por outra indústria exploradora não me parece muito condizente com um conceito de ser "livre".

Esses fatos me angustiam, pois me parece que o "véu" das ocidentais — que pensam que são livres  é a modelo da capa da revista, da propaganda de xampu, de batom, de perfume, de lingerie...

"Mas todo aquele esforço para 
parecerem atraentes... 
em suma, não me transmitia 
uma ideia de liberdade".

Não estou dizendo que é, por si só, estigma de opressão social o uso de maquiagem, pintar e/ou alisar o cabelo, claro que não é — nem mesmo o véu, por si só, o é —, o que quero trazer à reflexão nesse post é que tem bem menos vontade e escolha livre em muitas das nossas "escolhas" do que acreditamos e precisamos falar mais sobre isto.

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• Referência: BERTOTTI, Ugo. O Mundo de Aisha: A revolução silenciosa das mulheres do Iêmen. São Paulo: Nemo, 2015. Fotografias: Agnes Montanari; Tradução: Fernando Scheibe.

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