quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Você pode fazer isso, se quiser.

Quando eu era criança, rejeitava sumariamente as condições de gênero que o mundo me impunha. Eu gostava de ter uma mochila cor-de-rosa da Minnie – que eu escolhi na loja –, mas também não me furtava o direito de gostar de jogo de futebol de botão. Durante a adolescência – fazendo jus ao meu ascendente em aquário [do contra por opção] – a tal rejeição tomou proporções maiores. Eu não usava NADA que tivesse tons pastéis, sobretudo rosa e lilás, nem sob tortura. Vestido? Destestava. Só usava tênis, calça jeans e camiseta. Lembro que minha tia me deu uma carteira em couro bege que tinha uma aplicação de ilhós dourados formando a imagem de uma borboleta na frente. Era fofo demais, coisa de menininha demais, claro que não usaria. E foi o que eu fiz, guardei numa caixa de coisas para doar a alguém. 

Acontece que, com o tempo, o coração do contra influenciado aquário foi se abrandando, e a mente amadurecendo, oferecendo espaço a toda sensatez, ponderação e harmonia de uma boa libriana que sou. Acredito que muito devo à influência do glam metal, do glam rock, gêneros que sempre me atraíram, tanto pela música, quanto pelo visual é tosco mas é bom uahuah. Um, dia eu encontrei essa carteira guardada entre minha coisas, nova, intacta, achei ela linda e comecei a usar. Quando comprei meu primeiro vestido até que gostei. Era confortável, leve, fresco, perfeito nesse calor infernal. Continuo não gostando de salto alto. Prefiro conforto aos meus pés. Um dia eu acordei e percebi que há tempos eu estava profundamente cansada da aparência do meu quarto. Paredes num tom verde-claro e móveis a prateleiras em tom mogno. Decide mudar para algo mais leve. Pintei as paredes de lilás e troquei as prateleiras por branco, a mesinha do computador por uma verde-piscina que combina com o puff lilás. Ficou de um jeito que se minhas amigas de 10 anos atrás entrassem, nunca diriam que aquele era o quarto de Jacilene. Sem chance! E talvez não fosse mesmo. Pelo menos não daquela Jacilene antiga que conscientemente contrariava os padrões e expectativas sociais com relação a ela, mas que hoje, tão conscientemente quanto, percebeu que pode fazer o que quiser, se quiser, sem correspondência ou influência dessas tais expectativas e padrões, nem que seja no agir inverso de propósito. Talvez autonomia tenha algo a ver com isso, também.


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