segunda-feira, 1 de maio de 2017

Caras que eu conheço

Na minha pré-adolescência fui a "amiga-tipo-menino", mas isso só até a menstruação descer e meu corpo mudar e os meninos começarem a perceber que eu não era "um cara". Permaneceu assim, não mudou, mesmo que eu mudasse os amigos eu sempre era um "não-cara", antes de qualquer outra coisa, e o respeito (no sentido de admiração e consideração) não tinha como não passar por esse filtro: "Jacilene é uma menina". Não deixou mais de ser assim, mesmo nos meios de "caras" que dizem não fazer diferenciação de gênero (porque quase sempre é mentira). Eu nunca tive vontade de "ser qualquer daqueles caras", na grande maioria era um monte de idiotas mimados, incapazes de ver qualquer complexidade no que fosse, porque vivem num sistema que os mima e os protege para sempre serem servidos, hoje pelas mães, amanhã pelas esposas, mas sempre pelas "mulheres", uns babacas fanfarrões criados sem capacidade de fazer o próprio café da manhã, arrumar a própria cama ou lavar uma camisa. E eles "perceberam que eu era uma dessas", que eu "não era um cara". 

Cresci observando e protestando contra atitudes práticas que reduziam minha humanidade à categorização "mulher" e, com isso, carregava minhas costas com o peso de todas as expectavas sociais imbecis que se tinham para essa categorização prévia: seja boazinha; seja frágil; seja doce; seja meiga; seja delicada; seja "mais feminina"; os meninos não gostam de meninas assim, então seja uma estúpida que faça eles se sentirem seguros, porque, na verdade, eles que são inseguros e estúpidos; não seja melhor do que os meninos. 

Na verdade, mesmo hoje, eu conheço um monte de caras que até dizem apoiar ideias feministas, que bancam os descontruidões descolados para alguns grupos que querem impressionar, mas que no fundo, na sinceridade, não respeitam de verdade um ser humano pelos seus feitos e ideias sem fazer uma prévia categorização de gênero, isto porque, no fundo, acreditam que mulher é tudo estúpida, fútil, superficial e "complicada" (pra não dizer idiota), são uns tipos de caras que gostam de verdade e respeitam, admiram de verdade, só os amigos que eles categorizam como homens, com quem podem conversar "coisas de homem" e ouvir as opiniões e experiências "dos caras", que são as que realmente eles dão atenção, enquanto às mulheres eles fingem ouvir porque ouviram dizer no feminismo que têm que ouvir. Porém, considerar uma pessoa sem expectativas de gênero é uma prática, uma internalização, não um bla bla bla hipócrita. Conheço diversos desses caras, me entediam, por isso minha atitude tem sido a de ignorá-los.

*   *   *
>> Livro que eu indico esta semana: 

"Último aviso", por Franziska Becker
Categoria: Quadrinhos adultos;
Publicado no Brasil por: Barricada;
130 pgs.

Sinopse: 'Último aviso' traz o olhar feminista afiado da alemã Franziska Becker sobre temas variados da vida privada e social, como consumo, moda, dinheiro, relacionamentos, política, religião e mídia. Iniciada no mundo das charges, caricaturas e histórias em quadrinhos na década de 1970, Franziska é considerada uma das mais brilhantes cartunistas da Alemanha. Oscilando entre a profunda seriedade e bobagens absurdas, Franziska criou com o conjunto de seus trabalhos uma grande crônica sobre o contemporâneo, abordando situações familiares e atuais, mas de relevância atemporal. Sua visão do mundo mostra um retrato surpreendente e irritante de nossa existência, sempre colocando o leitor entre o sonho e a realidade. Com ironia, humor e uma dose de sua própria experiência, Franziska revela o espírito da época em todas as suas facetas, com um olhar incorruptível que pode ser, ao mesmo tempo, maldoso e amoroso, mas que é sempre certeiro e anarquista. Quer se trate de 'modalidades esportivas para mulheres', da 'administração de crises' ou da 'nova política para desempregados' - os desenhos burlescos e as situações bizarras criados pela cartunista são marcados pela irreverência e enriquecidos por uma profusão de detalhes que remete aos mais sutis absurdos do cotidiano.

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