quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Relações humanas esvaziadas e consumismo preenchedor

Uma pergunta para fazer a si próprio: Desses 200 "amigos" que curtiram tua foto quantos aceitariam um convite para tomar um café contigo? 

Pois é, as relações virtuais são muito mecânicas. Eu aceito isso até certo ponto, mas somente "até certo ponto", afinal, eu não estou dizendo que espero que 200 das pessoas adicionadas no meu Facebook sejam amigos verdadeiros, desses que se confia as lamúrias e alegrias. Claro que não, nem daria para aguentar tanta carga. Imagina? Não. O que me deixa pensativa é perceber que todas as relações parecem se sustentar pelo modus operandi das plataformas de rede social. Então como acontece com aquelas cinco ou seis pessoas que espera-se que possamos realmente chamar de amigos próximos? Parece que hoje se vive a epidemia da desumanização das relações humanas, e a "política das curtidas" mostra como esse horror opera. Afinal, onde "curtir uma foto" significa manter contato com alguém quem precisa visitar quem quer que seja? Outro dia morreu um conhecido da faculdade e uma ex-colega de classe comentou num textão de despedida em seu Facebook "mantínhamos estreito contato, falei com ele ainda ontem", quando na verdade ela não o via pessoalmente há mais de dois anos e "estreito contato" eram curtidas e comentários em posts do Facebook, às vezes uma troca de "oi" no Whatsapp. 

O fato é que está todo mundo muito ocupado em ganhar dinheiro, para pagar as contas e comprar coisas, para se distrair do vazio que é viver só para comprar coisas e pagá-las para comprar mais, enquanto não se morre. Por isso quem vai se importar em alimentar relações com outros humanos, que têm defeitos, que podem te machucar? Outro dia conheci um aplicativo para celular chamado Wish, um app que serve para comprar todo tipo de bugiganga inútil. Dei uma passada nas coisas à venda na plataforma e me senti, honestamente, angustiada, aquilo é exatamente o tipo de coisa que mantém consumistas distraídos enquanto não morrem. Nada do que tinha ali era algo que eu pudesse classificar como minimamente necessário. Muita gente que eu conheço está viciada em comprar coisas completamente dispensáveis nessa coisa. A mecanização das relações é esvaziadora, e o consumo é a promessa de preenchimento desse vazio.

Essa geração atual se perturba demais com qualquer possibilidade de "sentir dor", daí se refugia em amar coisas ao invés de pessoas. A lógica é: coisas não te decepcionam, pessoas sim. Como lidar com a possibilidade de se decepcionar com alguém? Pois é... É verdade que estreitar relações com outros seres humanos implica em riscos, e num mundo onde o egoísmo é o motor que move a sociedade, é claro que a possibilidade de ser "feito de trouxa" só aumenta. Eu mesma já me decepcionei com pessoas que considerava amigas de verdade e sofri, fiquei triste, mas também cresci e aprendi. Falsos amigos podem ser muito devastadores nas nossas vidas. Porém aprendi com essas experiências, sobretudo, a valorizar pessoas sinceras e amigas reais. Por sorte também tive oportunidade de conhecer pessoas de alma rica, que me inspiram a ser um ser humano melhorE o que seria ser um ser humano melhor? É ser alguém que preza pelo sentido de humanidade enquanto algo não mecânico e egoísta. É ser alguém em relação com os Outros do mundo, capaz de perceber que o valor intrínseco de um ser humano está para além do preço. Objetos têm preço, pessoas têm valor. Eu respeito essas pessoas e me sinto rica e sortuda de poder aprender com elas a ser um ser humano melhor. Há amigos que ficaram para trás de quem tenho saudade e queria retomar o contato? Certamente. Mas a vida vai seguindo seu curso, quem sabe um dia acontece uma oportunidade?... Do mesmo jeito há pessoas que eu escolhi atravessar a rua para nem precisar cumprimentar caso esbarre por aí, mas sem rancor, sem raiva, de boas, simplesmente escolhi repelir por razões de autodefesa. É assim mesmo, faz parte de amadurecer.

Com que frequência você conversa pessoalmente com seus amigos mais antigos? Eles realmente gostam de você? As relações são laços que se possa dizer firmes? Quantos deles se tornaram apenas alguém que curte um post ou outro no Facebook? Tente verificar sua lista de amigos e responder isso para si ainda hoje.


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